/ Artigos10 de Fevereiro de 2010 | 08:07

Memórias de Adriano *

Sem exagero, meus mais remotos fragmentos de memória relacionam-se com as eleições municipais de 1968 em Maringá. Por influência de minha mãe, acompanhei, com a emoção de uma criança de 5 anos, a vitória do MDB de Adriano Valente na empolgante campanha que teve como símbolo o pé de chinelo, elo que o associava ao povo humilde. Assíduo nos comícios, eu decorava e cantava as músicas de campanha e imitava os discursos do novo prefeito.
O interesse pela política, então avivado, permaneceu e aderi, na juventude, à militância partidária. Com a redemocratização do país e com o pluripartidarismo, meu envolvimento com os movimentos estudantis e sindicais foi o passaporte para a filiação ao novo partido que então fora criado, o PT.
Iniciei-me na vida acadêmica e pude entender melhor os acontecimentos mais remotos e mensurar a grandeza dos agentes políticos que protagonizaram a disputa de 1968. Entendi, então, que havia sido um duelo de titãs e passei a respeitá-los mais ainda.
Em particular, minha afeição por Adriano Valente atualizou-se quando passei a ter contatos pessoais com ele. Em 1988, organizamos um comitê suprapartidário para reivindicar Diretas para Presidente, no contexto da Assembléia Nacional Constituinte.
Em uma reunião realizada na sede do PDT, chegou o ex-prefeito, que estava filiado à legenda brizolista. Fiquei muito emocionado, sobretudo porque eu estava na mesa coordenadora da reunião e cabia a mim distribuir a palavra aos oradores. 
Quase engasguei quando disse: “com a palavra o companheiro Adriano Valente”. Ainda em 1988, mantivemos muitos contatos na campanha municipal, a última vez em que ele disputou a prefeitura. Nas atividades que envolviam todos os postulantes, ele tinha a tendência de dialogar com o professor Norberto Miranda, candidato do PT, do qual eu era vice. Eu mais ouvia do que falava, aproveitando a chance de aprender com sua sabedoria.
Foram muitos os contatos daí em diante. O último deles ocorreu no final de maio de 2009, quando eu fui lhe levar um exemplar de meu novo livro, “Da arte de votar e ser votado”. Foi só então que entrei na sala do tesouro, na sua lendária biblioteca, fonte e testemunho de sua sólida formação intelectual e humanista. A conversa foi informal e saborosa. Quando ele me pediu para autografar o livro, não hesitei e grafei: “ao prefeito Adriano Valente, meu herói de infância”. 
Nesses dias, fui indagado algumas vezes sobre seu legado. Sua obra como prefeito e como deputado federal fala por si própria. Além de realizador, ele tinha visão de futuro e antecipava pautas cuja importância ainda não era suficientemente mensurada, como a questão ambiental.
Entretanto, o que eu mais admirava nele era sua sensibilidade, especialmente em relação aos mais humildes. Em 2008, ao aconselhar um candidato a prefeito que o procurou, ele ensinou: “se os pobres de uma cidade não vivem bem, a responsabilidade é do prefeito”. Não quis dizer que todas as soluções estavam ao alcance da mão do prefeito, mas apontar qual deveria ser a prioridade da administração municipal. 
O tempo é inexorável. Adriano Valente e seus contemporâneos passaram o bastão da liderança para as novas gerações, mas deixaram um patamar de comparação muito elevado.

* Reginaldo Dias, na coluna Entrelinhas de O Diário, de 10.02.2010

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