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A escola e o preconceito, por Rosely Sayão*
Hoje vazia de sentido, a expressão "educação para a cidadania", que não sai do discurso, precisa ser honrada
"Mãe, eu não quero mais ser preto, eu quero ser branco".
Uma conhecida foi surpreendida por essa frase, pronunciada pelo filho de oito anos, ao buscá-lo na escola particular que frequenta.
A reação da mãe foi emocional e intensa, mas ela teve o bom senso de deixar tudo o que pensava e sentia de lado, para conseguir dialogar com a angústia do filho. Perguntou a ele os motivos que tinha para dizer isso.
O garoto prontamente respondeu que estava cansado de ser bandido sempre que brincava com os colegas na hora do recreio.
Contou o menino que, naquele dia, quando manifestara sua vontade de ficar ao lado dos mocinhos, ouviu dos colegas que, porque era preto, ele só podia ficar no lado dos bandidos.
No mundo da diversidade e do discurso do respeito à diferença, o preconceito e o estereótipo ainda imperam.
Por isso, precisamos pensar na educação que praticamos com nossas crianças.
Vamos tomar as diferenças físicas como exemplo, para falar do preconceito e dos estereótipos que as crianças enfrentam geralmente sozinhas, e o exemplo do início do texto ilustra bem essa situação.
A escola, local onde as crianças se encontram, nos permite ter uma bela visão das diferenças de aparência entre elas.
Vemos crianças de todos os tamanhos, pesos, cor de pele, cabelos, olhos etc.
Entretanto, dentre essas diferenças, algumas são mais expressivas e são essas que chamam mais atenção.
As crianças que as apresentam são as que se tornam alvo de apelidos, de atitudes preconceituosas e, portanto, de discriminações.
O que torna essas diferenças mais expressivas do que outras? São vários os motivos, mas talvez uma das razões mais importantes seja o distanciamento delas daquilo que é considerado como o "tipo ideal".
E qual é esse "tipo ideal"?
Por mais difícil que seja, vamos encarar a imagem de nosso tipo ideal: homem, jovem, branco, magro e bem vestido, fisicamente perfeito.
E como fica a situação das crianças que usam óculos, das que estão com sobrepeso ou muito magras, das que têm cabelos vermelhos ou crespos, pele negra, olhos puxados etc.?
Foguinho, japinha, quatro-olhos, nanico, crioulo e baleia, entre tantas outras, são algumas das denominações que as crianças dão a esses colegas.
E a escola, caro leitor, tem sido um ambiente indiferente a essas questões. Ela não desenvolve nenhum trabalho sistemático a esse respeito e pratica, portanto, a política do avestruz: enterra a cabeça na areia para não ver os problemas que tem à sua frente.
A questão é que não são apenas as crianças vítimas desses preconceitos as únicas prejudicadas. Todo o esforço da educação, que é o de buscar o melhor viver, fica comprometido.
Por isso, aquela expressão tão valorosa, mas tornada vazia de sentido, que toda escola sustenta em seu projeto -"educação para a cidadania"- precisa ser honrada para que, na prática, crianças como essa do nosso exemplo não sofram, sozinhas e sem apoio, a discriminação de seus colegas. Esses, por sua vez, também precisam aprender o sentido do que fazem.
Lutar contra o preconceito é uma responsabilidade da escola também, afinal trata-se de educação. Mas isso não deve acontecer pelo moralismo ou pela instalação do politicamente correto.
O eixo desse trabalho deve ser o conhecimento e a construção de relações justas, solidárias e respeitosas no ambiente público.
* ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (Publifolha) blogdaroselysayao.blog.uol.com.br


